Jogos Eternos – Náutico 0x1 Grêmio 2005

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Data: 26 de novembro de 2005

O que estava em jogo: uma vaga na elite do futebol brasileiro e um possível título do Campeonato Brasileiro da Série B de 2005

Local: Estádio dos Aflitos, Recife (PE), Brasil

Juiz: Djalma Beltrami (RJ)

Público: 29.891 pessoas

 

Os Times:

Clube Náutico Capibaribe: Rodolpho; Bruno Carvalho (Miltinho), Tuca, Batata e Ademar; Tozo (Betinho), Cleisson, David (Romualdo) e Danilo; Paulo Matos e Kuki. Técnico: Roberto Cavalo.

Grêmio FBPA: Galatto; Patrício, Domingos, Pereira e Escalona; Nunes, Sandro Goiano, Marcelo Costa e Marcel (Anderson); Ricardinho (Lucas) e Lipatin (Marcelo Oliveira). Técnico: Mano Menezes.

Placar: Náutico 0x1 Grêmio (Gol: Anderson-GRE, aos 61´do 2º T).

“A Batalha dos Aflitos”

Não foram dois, três ou quatro minutos de acréscimo. Foram quase 25. Não foram um ou dois jogadores expulsos. Foram quatro. Não era decisão de título brasileiro, de Copa Libertadores ou Mundial Interclubes. Era a vida ou a morte no Campeonato Brasileiro da Série B. Bastava um empate ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense para o acesso à Série A. Mas tudo conspirava para uma vitória do Clube Náutico Capibaribe naquela tarde de 26 de novembro de 2005, no estádio dos Aflitos, em Recife, que nunca estivera tão aflito e tão tenso como naquela vez. Expulsões, pênaltis, catimba. Tudo estava a favor dos pernambucanos e parecia mesmo que o Grêmio ia permanecer mais uma temporada na segundona, o que poderia significar um ostracismo e até mesmo o sumiço de um dos maiores clubes do Brasil e do mundo. Mas, já nos acréscimos intermináveis do segundo tempo, o goleiro Galatto conseguiu defender um pênalti letal, trágico, que mataria de uma vez por todas o tricolor. Poucos minutos depois, Anderson arrancou pela esquerda, escapou dos alvirrubros e marcou um golaço, digno de craque, digno de decisão, digno de imortalidade. Era a vitória. Era o alívio. Era o acesso. Era o título. Naquele 26 de novembro de 2005, o Grêmio FBPA não conquistava uma taça louvável, muito menos uma estrela para estampar em seu pavilhão. O Grêmio conquistava o título mais dramático e épico de sua mais do que centenária história. Muito mais que isso, o Grêmio conquistava de uma vez por todas a fama e a alcunha que a torcida e o próprio clube tanto se orgulham em ter: imortais. A partir daquele dia, nenhum time, nenhum árbitro e nenhuma catimba poderia matar o Grêmio. É hora de relembrar um dos jogos mais incríveis (e malucos) da história do futebol brasileiro.

 

Pré-jogo

Depois de um início capenga, o Grêmio se encontrou e conseguiu embalar rumo ao quadrangular final da Série B de 2005.

Depois de um início capenga, o Grêmio se encontrou e conseguiu embalar rumo ao quadrangular final da Série B de 2005.

 

Depois de quase ser rebaixado em pleno ano do centenário (2003), o Grêmio voltou a fazer uma campanha pífia no Campeonato Brasileiro de 2004 e caiu para a Série B. Cheio de dívidas, sem craques e beirando à falência, o clube gaúcho teve que tirar água de pedra para construir o caminho de volta à primeira divisão. Depois de ficar na quarta colocação na primeira fase do campeonato, o time jogou o necessário para se classificar em segundo no Grupo A da segunda fase e garantiu a vaga no quadrangular final. Apenas os dois primeiros estariam garantidos na primeira divisão. Depois de cinco rodadas, tudo estava aberto para os últimos jogos do quadrangular. Náutico e Grêmio se enfrentariam no estádio dos Aflitos e Santa Cruz e Portuguesa no Arruda. A cidade de Recife, ao menos no dia 26 de novembro, seria a capital do futebol para milhões de torcedores. Náutico, Santa Cruz e Portuguesa teriam que vencer para conseguir o acesso. Apenas o Grêmio jogava pelo empate.

O estádio dos Aflitos: hostil, lotado e feito para "matar" o Grêmio naquele 26 de novembro.

O estádio dos Aflitos: hostil, lotado e feito para “matar” o Grêmio naquele 26 de novembro.

 

No Arruda, o Santa Cruz venceu e carimbou o passaporte para a primeirona. Nos Aflitos, muita catimba antes do jogo por parte do Náutico, que construiu um ambiente para enervar os atletas do Grêmio. Primeiro, hostilidade ao extremo dos torcedores do Timbu que cercaram o ônibus gaúcho e forçaram uma escolta policial aos atletas tricolores. Segundo, o vestiário (ou o que era para ser um…) onde o Grêmio teria que ficar era pequeno, mirrado, cheirava à tinta óleo fresca e não dava acesso ao gramado para o reconhecimento dos jogadores. Por quê? Porque a porta foi soldada e trancada com cadeado! Já bem tensos e nervosos por conta de toda aquela bagunça e também pelo calor, o tricolor foi a campo contra tudo e todos. O Náutico era um time chato, perigoso e muito rápido, com uma dupla de ataque entrosada e que poderia trazer sérios problemas à zaga gremista. O Grêmio precisaria de sorte, talento e garra se quisesse sair vivo daquele caldeirão. Mas nem o mais pessimista poderia prever tanto drama como o que estava prestes a acontecer.

Os times em campo: velocidade do ataque era a arma do Náutico para conseguir a vitória. Já o Grêmio apostava na força e raça de seu sistema defensivo para arrancar um empate.

Os times em campo: velocidade do ataque era a arma do Náutico para conseguir a vitória. Já o Grêmio apostava na força e raça de seu sistema defensivo para arrancar um empate.

 

Primeiro tempo – Isso não vai acabar bem…

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Com um time limitado e os nervos a flor da pele, o Grêmio não conseguiu impor ritmo próprio no começo do jogo e viu o Náutico ter as melhores chances sempre pelo lado direito e na base da velocidade. Quando o tricolor gaúcho atacava, Ricardinho e Marcel pecavam na hora de chutar ou na falta de objetividade. Depois de alguns lances mornos, o jogo começou a esquentar aos 31´, quando Paulo Matos recebeu dentro da área e foi derrubado por Domingos. Pênalti e cartão amarelo para o zagueiro tricolor. Na cobrança, Bruno Quadros bateu e a bola explodiu na trave. O Grêmio escapava do primeiro golpe do dia. Mesmo com o erro, o Náutico não se abateu e continuou pressionando os gaúchos em busca do primeiro gol. Eram tabelinhas, chutes perigosos e um futebol de muita velocidade, mas com pouco talento. O goleiro Galatto mostrava muita inspiração naquela tarde ao fazer várias defesas complicadas. Ao apito do árbitro Djalma Beltrami, o primeiro tempo acabava nos Aflitos com o Grêmio na Série A e o Náutico mais um ano na B. O técnico tricolor, Mano Menezes, decidiu mexer na equipe no intervalo ao sacar Ricardinho e colocar o volante Lucas (Leiva), para dar mais proteção à zaga e também mais velocidade. Estava claro que o empate já estava de bom tamanho. Mas acontecimentos absurdos no segundo tempo dariam toda a pinta de que o Grêmio não ia sair ileso dos Aflitos.

 

Segundo tempo – três expulsões, pênalti nos minutos finais, drama, heroísmo e imortalidade

Mano Menezes conversa com Anderson (à dir.): o jovem, ao lado do goleiro Galatto, iria mudar a história do jogo. E do Grêmio.

Mano Menezes conversa com Anderson (à dir.): o jovem, ao lado do goleiro Galatto, iria mudar a história do jogo. E do Grêmio.

 

No começo da segunda etapa, os times voltaram com tudo e tiveram chances claras para abrir o placar, mas a zaga e os goleiros conseguiam evitar o grito de gol no Recife. Aos 16´, Mano Menezes colocou mais um jovem no time: Anderson, de apenas 17 anos, no lugar de Marcel. O garoto entrou bem na partida e aos 22´deixou Lipatin em boa chance de marcar, mas o uruguaio não conseguiu. Aos 30´, Escalona colocou a mão na bola e foi expulso. O Grêmio ficava com 10 homens. Drama nos Aflitos. Se o Náutico já era perigoso com 11 homens que corriam sem parar, imagine com um jogador a mais? Dois minutos depois, pênalti para o Náutico não marcado pelo árbitro. Os pernambucanos ficaram revoltados, mas o jogo seguiu. No entanto, parece que o árbitro decidiu compensar o erro e, aos 35´, marcou um pênalti num lance em que Paulo Matos chutou e a bola bateu no cotovelo do gremista Nunes. Os jogadores gremistas ficaram loucos e Patrício foi com tudo pra cima do árbitro. No encontrão, Beltrami expulsou o lateral tricolor. Começava a confusão.

O início da discórdia...

O início da discórdia…

... E da "vermelhidão" do árbitro Beltrami.

… E da “vermelhidão” do árbitro Beltrami.

 

Os tricolores tinham sangue nos olhos, só enxergavam o carrasco vestido em amarelo e preto e davam a nítida impressão que iriam degolar o árbitro carioca. Houve tumulto, a polícia teve de entrar no gramado, a imprensa tomou conta do círculo de fogo, baderneiros aproveitaram para apimentar ainda mais a zona instaurada e o jogo foi paralisado. Os minutos se passavam e nada de a poeira abaixar. Cartões vermelhos eram levantados com a mais pura ira por Beltrami para gremistas, policiais, gremistas, repórteres e mais alguns gremistas (!). Depois de 25 minutos, eis que o jogo recomeçou. O saldo? Patrício, Nunes e Domingos expulsos. Isso mesmo. O Grêmio teria que jogar com apenas sete homens. Para piorar, o Náutico ainda tinha um pênalti a seu favor. Era o fim. A torcida tricolor via seu time derrotado, eliminado e tendo que viver mais um calvário na Série B de 2006. O que seria do Grêmio? Ele ia virar um time comum? Desaparecer? Falir? Todos os mais terríveis prognósticos eram traçados e imaginados. Dava dó.

Galatto reza...

Galatto reza…

... E defende o pênalti! Épico!

… E defende o pênalti! Épico!

 

Aos 59´do segundo tempo, eis que Ademar foi para a cobrança do polêmico pênalti. Solitário dentro do imenso gol dos Aflitos, Galatto rezava e tentava encontrar maneiras de defender aquela cobrança. Era o momento mais trágico e dramático da história do Grêmio. Olhares atentos. Respiração paralisada ou lenta. Ninguém se movia nos Aflitos. A tensão era algo simplesmente épico. Ademar correu, bateu… E Galatto defendeu! Com os pés! E sem rebote! A torcida parecia não acreditar. Jogadores do Náutico desabavam no chão, desolados. Já os gremistas por lá, e em Porto Alegre, eram o mais puro delírio. A chama da imortalidade começava a ser acesa. O jogo poderia acabar ali, naquele lance, naquele momento mágico, mas ainda faltavam alguns minutos. Para o desespero do Grêmio. E da esperança do Náutico, com quatro homens a mais, ou melhor, três, pois Batata foi expulso logo após o contra-ataque do Grêmio, aos 60´, por cometer falta em Anderson, o garoto de 17 anos colocado na fogueira por Mano Menezes. Este mesmo Anderson aproveitou a falta cobrada com rapidez na ponta-esquerda, partiu em velocidade e foi deslizando em direção à área alvirrubra como se estivesse sob uma nuvem de proteção divina impenetrável. Ninguém ousava tocar no garoto. Ninguém foi páreo para os dribles secos aplicados pelo camisa 17 tricolor. Ninguém piscou os olhos, nem mesmo os torcedores pernambucanos, quando Anderson chutou na saída do goleiro Rodolpho com a categoria do mais alto craque, com o quilate da mais valiosa pepita de ouro, com o mais sublime toque artístico de um renascentista. Gol. Gol do Grêmio. Gol da classificação para a Série A do Campeonato Brasileiro. Gol do título do Campeonato Brasileiro da Série B. Gol que valeu a aura da imortalidade gremista. Não havia silêncio no estádio dos Aflitos. Havia gritos. Emoção. Choro. Tudo vindo do lado gaúcho, seja no gramado, seja no banco de reservas, seja no cantinho onde estavam os fiéis torcedores tricolores. Há milhares de quilômetros dali, milhões de gremistas transformavam o Rio Grande do Sul e qualquer outra cidade com pelo menos um gremista vivo em pirotecnia. Em carnaval. Em revolução. Em orgulho. Que torcedor no mundo não queria ver seu time vencer um jogo como aquele e naquelas circunstâncias? Qualquer um. O jogo ainda teve mais oito minutos. Uma eternidade para qualquer gremista. Mas quem disse que o Náutico tinha brio para arriscar um golzinho sequer naqueles imortais? Mesmo se Beltrami expulsasse mais quatro gremistas, os três restantes dariam conta do recado contra os 10 alvirrubros. Nada e ninguém iriam tirar aquela glória dos gaúchos.

GRÊMIO COMEMORA A CLASSIFICAÇÃO PARA A 1º DIVISÃO

Aos 69´, Beltrami apitou o final de um jogo para a história do futebol brasileiro. E quiçá mundial. O Grêmio vencia o Náutico, nos Aflitos, por 1 a 0 com quatro jogadores expulsos, dois pênaltis desperdiçados pelo rival, sem reconhecer o gramado antes do jogo, tonto com o cheiro de tinta óleo do vestiário, extasiado pelo calor, prejudicado por uma arbitragem maluca e agredido pela polícia. Tentaram matar o Grêmio naquele dia. Não conseguiram. O impossível não existe. Pelo menos não para o Grêmio, imortal desde 26 de novembro de 2005.

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Pós-jogo: o que aconteceu depois?

Náutico: perder um jogo que poderia ser ganho em vários momentos e em várias oportunidades foi algo inacreditável para o Timbu. A torcida ficou revoltada, claro, jogou vários objetos no gramado e demorou a fazer as pazes com o time. No ano seguinte, o alvirrubro deu a volta por cima, ficou na terceira colocação na Série B de 2006 e conseguiu voltar à primeira divisão. O time permaneceu três anos na elite, caiu em 2009, disputou a segundona em 2010 e 2011 e retornou em 2012. Mesmo com os altos e baixos do período, a torcida agradece por jamais ter vivido um momento como o da Batalha dos Aflitos de 2005. Nos reencontros com o Grêmio desde então, os pernambucanos perderam sete, empataram um e venceram apenas um jogo de todos os disputados pelo Campeonato Brasileiro. Mas a única vitória foi bem saborosa para a torcida. Foi nos Aflitos, em junho de 2012, com um gol aos 46´do segundo tempo. Não foi uma batalha, mas valeu o aperitivo…

A massa tricolor recepciona seus heróis em 2005.

A massa tricolor recepciona seus heróis em 2005.

 

Grêmio: a imortalidade adquirida pelo Grêmio naquele dia 26 de novembro de 2005 ganhou proporções imensas. A torcida recebeu seus heróis como se eles tivessem vindo do Japão após um título mundial, em uma festa que tomou conta de Porto Alegre e do estádio Olímpico. O feito embalou o time nos anos seguintes e ajudou na reconstrução do clube, que voltou a triunfar em solo estadual, disputou uma final de Libertadores em 2007 (perdendo para o Boca de Riquelme, Palermo e Palacio na final) e construiu até uma nova casa, a Arena do Grêmio, que deu lugar ao estádio Olímpico Monumental. Até hoje a Batalha dos Aflitos rende lembranças dos torcedores, algo mágico que virou até filme. O jogo mais importante da história do Grêmio foi a final do Mundial Interclubes de 1983, vencida sobre o Hamburgo-ALE, mas a partida mais dramática, eletrizante e saborosa foi aquela dos Aflitos. Um jogo eterno.

 

Extra:

A Batalha

Veja os lances marcantes daquele jogo épico.

 

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